Na conclusão do Ano Sacerdotal, apresentamos a homilia do Bispo proferida na Missa dos Santos Óleos, na quinta-feira Santa
Caros irmãos, amadas irmãs em Cristo Jesus
Desde a páscoa de três anos atrás não celebrávamos a Missa dos Santos óleos nesta Catedral. Neste ano, após a conclusão dos trabalhos de reforma e tendo diante do nosso olhar e bem gravada no nosso coração a cerimônia da sua dedicação, com alegria e gratidão a Deus, retomamos a tradição de celebrar aqui a solene eucaristia que tem a marca da unidade da Igreja diocesana pela única bênção e consagração dos óleos que são levados em todas as paróquias e pela presença maciça dos presbíteros que, unidos ao seu pastor, renovam as promessas da sua ordenação, diante de Deus e do seu povo, com a vontade de assumir, unidos como membros de um único corpo, a missão de santificar, evangelizar e conduzir o rebanho confiado aos seus cuidados de pastores.
Neste ano sacerdotal, celebrar a Missa da unidade reveste-se de um significado mais profundo, pois desejamos selar, com a renovação das promessas, a vontade de viver mais santamente a nossa vida e o nosso ministério. Mas, em que contexto nós estamos celebrando este ano sacerdotal?
Certamente a ocasião foi o sesquicentenário da morte do Santo Cura de Ars, Padroeiro dos sacerdotes e neste sentido o papa quis convocar toda a Igreja a orar pelos padres e convidá-los a imitar o seu luminoso exemplo de pastor.
Contudo, esta relação, como se dá?
Por parte do povo
• Orar
• Colaborar
• Acolher (família).
Por parte do padre:
1. Homem de oração (homem guiado) configurado ao Cristo. Uma das atitudes que mais impressionam na vida de Jesus é a sua ligação com o Pai. Mergulhava diariamente na intimidade com ele, passava as noites em oração. A ele recorre em todas as circunstâncias da sua vida. A vontade do Pai era seu alimento. Ao Pai, no final da sua vida, entrega o seu espírito. Não se concebe um presbítero, configurado ao Cristo, sem a oração, todos os dias e em vários momentos do dia. O que poderá dizer um padre aos fiéis a não ser o que contemplou nos momentos mais profundos e verdadeiros de sua vida, que são os momentos da oração? Ele é chamado a ser mestre de oração, homem que ensina o povo a orar, que sabe fazer da liturgia um momento forte de oração e de encontro do povo com Deus, tornando-se assim “pontífice”, isto é homem que faz ponte, que cria pontes e que se faz ponte entre Deus e o seu povo.
2. Guia do seu povo em nome do Bom Pastor: valorizar, defender e salvar a vida. “O Bom pastor dá a vida por suas ovelhas”, diz Jesus. O presbítero não é somente o homem da oração e da liturgia, é também o pastor que cuida da vida de seus fiéis, um homem atento aos sinais do tempo, sabendo enxergar os perigos e as ciladas que ameaçam a vida, é uma sentinela que exorta e aponta saídas e horizontes de vida para as pessoas que lhe são confiadas. É profeta que fala em nome de Deus e que paga pessoalmente, colocando-se na primeira fila em conduzir o seu povo nos caminhos da justiça e da solidariedade, também quando isso custa a perda de privilégios e da consideração e estima da mídia e dos poderes que governam a sociedade construída sobre parâmetros não evangélicos.
3. Homem de comunhão que sente com a Igreja. O presbítero é membro do presbitério, não se entende como caminheiro solitário a abrir caminhos que tenham apenas ou prevalentemente a marca registrada do seu protagonismo pessoal. Os caminhos que abrimos são os caminhos da evangelização que a Igreja nos propõe, deixando-nos amplo espaço para a criatividade e a ousadia pastoral. Mas é importante agir como corpo, como família presbiteral. Comunicar, planejar juntos, escutar sincera e amplamente o povo de Deus em seus vários componentes, vocações e ministérios, escutar os irmãos presbíteros e o bispo, antes de tomar iniciativas isoladas, é sinal de maturidade eclesial e garantia de que o nosso trabalho terá êxito e continuidade, além de ser o caminho de ascese e crescimento espiritual que a Igreja aponta hoje para o ministério ordenado.
E, sobretudo, ter respeito, fraternidade e amor entre irmãos de presbitério: neste ano sacerdotal, o que o povo mais gostou foram as celebrações em todas as cidades da nossa diocese em que pôde ver os seus padres unidos em prece na eucaristia. Esta unidade se expressa neste momento e queremos renová-la todo dia ao celebrarmos a Eucaristia, quando mencionamos o nome do papa e do bispo na prece eucarística. Aqueles nomes não são pronunciados pela autoridade que exercem ou pela importância que tem, mas porque eles são o ponto de unidade na Igreja e, portanto, sinal de coesão de todo o corpo eclesial.
4. Homem capaz de cultivar a sua humanidade. Enriquecer constantemente a nossa humanidade, crescer em humanidade faz parte do processo encarnatório do Filho de Deus. O Verbo “se fez homem”, aprendeu a ser gente. Tem virtudes que adornam a pessoa só pelo fato dela ser gente. Como é bom e belo ver um ministro de Deus que, como Jesus, se torna cada dia mais gente, revestindo o seu ministério de humanidade e daquelas virtudes que adornam a sua vida de homem de Deus: sinceridade e amor à verdade, capacidade de honrar os compromissos assumidos, castidade e pureza de vida, honestidade no exercício da justiça, sobriedade em palavras e alimentos, respeito e dignidade no trato com as pessoas, sobretudo com as mais pobres, boa educação e boas maneiras com todos, desapego aos bens materiais, entre outras.
Atualmente esta relação entre os presbíteros e o Povo de Deus anda estremecida por um escândalo que nos envergonha em primeiro lugar a nós padres, um escândalo que uma campanha mediática amplia e deforma em detrimento da própria Igreja, visando atingir a própria pessoa do Santo Padre, o Papa. Trata-se do escândalo da pedofilia por uma parte bem limitada de membros do clero, que projeta um clima de suspeita sobre todo o corpo sacerdotal e que desmoraliza toda a ação evangelizadora da nossa Igreja.
Atitudes a serem tomadas:
1. Não negar, assumir e pedir perdão, confiando na misericórdia de Deus.
2. Tomar todas as medidas necessárias, sem olhar a quem, pois trata-se de um crime.
3. Ver em tudo isso um apelo de Deus para a purificação da nossa vida.
4. Apelo à santidade de vida.
A carta de um padre
“Também nestes dias de acusação e de exposição mediática, não me envergonho de dizer que nunca me envergonhei de ser padre. Alguns padres foram acusados de pedofilia? É uma vergonha e é justo fazer limpeza onde tem sujeira.
Dito isso, não me envergonho de pertencer a uma “categoria” de pessoas que dedicaram a própria vida para preparar crianças e jovens à vida, que tiveram a coragem de promover pela palavra e pelo exemplo – sim, pelo seu bom exemplo – o ideal de uma vida limpa, séria consigo mesmos e para com os outros, respeitosa e generosa.
Penso neste momento nos ótimos padres que me educaram, naqueles que conheci no meu longo ministério, que viveram para os outros, colocando a dignidade da pessoa, especialmente das crianças e dos jovens, na base do seu serviço pastoral.
Penso nos padres santos, que não são poucos, e naqueles honestos, que são muitos. Recordando-os, sinto-me levado a olhar para frente com confiança.
Não sou tão cego a ponto de não enxergar o que não vai bem, primeiro em mim e depois nos outros. Mas o bem maior não é nivelar por baixo o ideal e sim elevar o nosso nível de vida, sentindo-nos todos mais humildes, mais unidos na Igreja, sem deixar sozinhos demais os nossos padres, rezando por eles e sustentando-os com o nosso calor humano. Sobretudo não tenhamos a atitude de atirar com muita facilidade a primeira pedra.
Não. Não me envergonho de ser padre. Envergonho-me somente por não ser um padre santo”. (Pe. Piergiordano Cabra - Revista Osservatore Romano)
Os meus votos pascais:
“Paz a vós!
Como o Pai me enviou,
assim eu vos envio!” (Jo 20,21)
Pela ordenação, o presbítero
é conformado à pessoa de Cristo
e associado à sua missão.
Santo é o Cordeiro imolado!
Santo é o altar!
Santa é a Páscoa da ressurreição!
Santa seja a nossa vida!
Catedral de Santa Águeda (Pesqueira), 1º de abril de 2010

Dom Francisco Biasin
Bispo Diocesano
|