Entrevista
Frei Carlos Mesters, durante curso bíblico em Pesqueira - 09/06/2009 - 13:46



Em fevereiro Frei Carlos Mesters, Teólogo e exegeta, esteve na Diocese para Curso de Formação Bíblica para os presbíteros, religiosas e leigos. Eis a seguir a entrevista que fizemos com ele:

FALE-NOS SOBRE A SUA PESSOA, SUA VOCAÇÃO, SUA CAMINHADA...
Eu nasci na Holanda - faz muito tempo já, mais de setenta anos – e vim para o Brasil quanto tinha 17 anos. Vim como seminarista carmelita. Então aqui no Brasil completei o ginásio, fiz noviciado e Filosofia. E para Teologia me mandaram para Roma. Estudei em Roma. E lá em Roma me mandaram estudar Bíblia. Estudei Bíblia ainda em Roma e em Jerusalém, dois anos, fiz a tese sobre o livro do Apocalipse de João e em 1963 voltei pra cá e dei aulas no seminário até mais ou menos 1972. Daí pra cá eu ando nas comunidades ajudando nessa questão da leitura popular da Bíblia.

A QUE SE DEVE A SUA VINDA PARA O BRASIL?
Os Carmelitas, desde os anos 20 do século passado, mandavam estudantes para cá. E assim, eu vim com um grupo de 8 seminaristas. Então, não vim sozinho. Um pouquinho de aventura... hoje não se faz mais isso, mas naquele tempo a situação era outra e eu nunca me arrependi. Sou muito feliz de ter podido vir pra cá.

O SENHOR VEIO COM TEMPO DETERMINADO PARA VOLTAR?
Não, para ficar definitivamente, fazendo parte da Província dos Carmelitas no Brasil. De fato, ainda hoje sou membro desta Província e, atualmente, resido em São Paulo.

QUE MOMENTOS DE SEU MINISTÉRIO O SENHOR DESTACARIA?
É difícil destacar... pergunta para uma mãe qual dos filhos ela gosta mais! O que eu aprendi muito foi em Crateús: ir nas dioceses, nos ‘anos de chumbo’, época da repressão, para ajudar as comunidades na leitura da Bíblia. E também andar pelo sertão lá de Crateús, na fronteira com o Piauí. Para mim foi a pós-graduação.

QUAIS OS MAIORES DESAFIOS QUE A IGREJA ENFRENTA HOJE PARA FORMAR O SEU POVO?
Acho que nós estamos clericalizando muito a Igreja, hoje em dia. E a Igreja está sendo desafiada a não esquecer os pobres. Aí eu dou muita razão a Dom Hélder, cuja semana de nascimento celebramos faz pouco tempo. A presença dos pobres nunca pode sair do horizonte nosso porque foi a primeira coisa que Jesus falou quando ele se apresentou na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, me enviou para anunciar a Boa Nova aos pobres” e, depois, formar sobretudo bem fundamentada na ciência e no contato com o povo. Uma formação bem pessoal, bem dada, para que a pessoa tenha convicções profundas a partir do Evangelho e a partir da realidade com quem nós convivemos. Também insistir na participação dos leigos cada vez mais, cada vez mais. Não tem outro caminho.

A CONFERÊNCIA DE APARECIDA APONTA PARA UMA IGREJA VOLTADA PARA UMA PASTORAL DECIDIDAMENTE MISSIONÁRIA AO INVÉS DE UMA PASTORAL QUE A PRÓPRIA CONFERÊNCIA CHAMOU “DE MERA CONSERVAÇÃO”. APÓS UM ANO DESSA DECISÃO DA IGREJA, PARECE QUE POUCO SE FEZ NESTE SENTIDO...
Se você planta alface, terá frutos daqui a algumas semanas. Se você planta jacarandá, vai ter que esperar 30 anos. Aparecida foi semente de jacarandá. Quer dizer, a longo prazo. E mudar a Igreja de uma pastoral de conservação para uma pastoral missionária leva muito tempo, mas se começou! Foi muito providencial essa insistência na missão da Igreja, “Discípulos e Missionários de Jesus Cristo para que nele nossos povos tenham vida”. É uma das coisas mais importantes que nós recebemos de Aparecida. E penso que vai haver, daqui a muitos anos, Comblan diz daqui a cem anos, quer dizer, a longo prazo... porque um caminhão quando faz curva fechada, capota. Igreja é maior que caminhão. Não pode fazer curva fechada. É uma curva lenta. Já entrou na curva, eu acho. A gente pode esperar coisa boa!

O CONCÍLIO VATICANO II, PASSADOS MAIS DE QUARENTA ANOS, TEM REFLEXOS DE SITUAÇÕES A SEREM VIVIDAS AINDA HOJE...
Sim, em muitos lugares ainda não chegou. Como o Concílio de Trento em muitos cantos ainda não chegou: só chegou aqui depois de 400 anos. Quer dizer, são coisas relativas... tem que insistir.

QUANDO AINDA ERA CARDEAL, O PAPA BENTO XVI AFIRMOU QUE A MAIOR AMEAÇA É O “MEDÍOCRE PRAGMATISMO DA VIDA COTIDIANA DA IGREJA, NO QUAL, APARENTEMENTE, TUDO PROCEDE COM NORMALIDADE, MAS NA VERDADE A FÉ VAI DEGENERANDO-SE EM MESQUINHEZ”. O QUE O SENHOR ACHA QUE ELE QUIS DIZER?
Aí eu vou falar: eu não sou tão pessimista, não. Tem tanta coisa bonita! No meio dos pobres, quando você participa de um encontro como esse,onde tem mais de trezentas pessoas, todo mundo engajado. Para mim é semente de esperança. Muito importante. Isto que o Papa fala é verdade, mas importância tem de ser dada a esses grupos menores que estão recomeçando e Comunidades Eclesiais de Base, como espécie de sol que vai renascendo aos poucos. Lá tem uma fonte de muita esperança. O Papa Paulo VI certa vez pediu que Dom Hélder o animasse um pouquinho e Dom Hélder contou uma história de uma comunidade eclesial de base lá do Recife. Difícil imaginar isso, não é? Mas para todos nós faz bem quando você fica perto das pessoas e vê como as pessoas nas dificuldades da sua vida sabem viver a fé. O coração da gente não fica animado? Você esquece o seu cansaço e sai com mais animação.

O SENHOR AFIRMA QUE O BRASIL É O PAÍS QUE MAIS DIFUNDE A PALAVRA DE DEUS. QUAL A DIFERENÇA QUE HÁ EM LER E VIVER A PALAVRA HOJE E NO TEMPO DE JESUS?
No Brasil, são distribuídas cerca de 8 milhões de Bíblias por ano. Naquele tempo, só havia Bíblia na comunidade, mas o pessoal toda semana ia na Sinagoga. A comunidade lia a Palavra, ouvia a Palavra e a retomava em casa. Não tinham tantas informações quanto nós temos hoje e, então, estes encontros tinham mais impacto do que os nossos. Se você percorre os quatro evangelhos, percebe que Jesus sabia a Bíblia de cor e salteado, pois constantemente ele alude aos fatos e as pessoas da Bíblia e, nos momentos mais comuns da vida, ele sabia lembrar uma palavra da Bíblia para aplicar à situação. Também hoje a coisa mais importante é ligar a Bíblia com vida e vida com Bíblia. Se a Bíblia nasceu da vida do povo, é para a vida do povo que deve ser lida e interpretada.

JESUS FREQUENTOU ALGUMA ESCOLA?
A escola de Jesus foi a roça mesmo, a casa, o povo, a situação, os problemas, os sermões dos rabinos que ele escutava aos sábados nas Sinagogas, a Mãe dele, Nossa Senhora, o trabalho.... a escola natural de todo mundo... e perto da Sinagoga havia uma escolinha chamada “a casa da letra” onde os meninos aprendiam a ler e escrever.

A IGREJA CONTINUA AFIRMANDO QUE A FAMÍLIA É A PRIMEIRA COMUNIDADE DE FÉ. COMO COMPREENDER ISSO QUANDO A FAMÍLIA PASSA POR UMA MUDANÇA E CONCEITO DE FAMÍLIA PARECE TER SE MODIFICADO AO LONGO DO TEMPO?
É uma afirmação importante, mas não no sentido de uma família sozinha. Pai, mãe e quatro filhos não consegue transmitir os valores que acreditam porque tem tantas influências de fora... Eu vejo a necessidade de as famílias se unirem entre si e formarem comunidades. No tempo de Jesus se falava em clã. Assim se consegue criar um contexto de vida em que se ajuda mutuamente.

GRANDE PARTE DOS JOVENS É INDIFERENTE À IGREJA. MESMO ASSIM, AINDA HÁ ALGUM HORIZONTE?
Se nós pudéssemos fazer como Jesus com os discípulos de Emaús: aproximar, escutar, saber sobre eles... Porque o jovem vive em outro mundo que o nosso. A gente precisa ver no sentido positivo o novo mundo que está nascendo. É uma transição e isso não é fácil! Precisamos escutar mais e depois confrontar com a Bíblia, ver como isso foi feito em outras épocas, para primeiro achar uma resposta e, sobretudo, eles mesmos, os jovens, poder dar uma palavra. Não é fácil, mas em muitos lugares a gente vê uma juventude participativa.

UMA DAS ATITUDES MAIS FREQUENTES DE JESUS É MOSTRAR PAI A PARTIR DA MISERICÓRDIA...
A palavra misericórdia significa ter o coração na miséria dos outros. Então, Jesus tinha isso. Ele estava despreocupado de si mesmo. Ele tinha entregue a vida dele nas mãos do Pai e por isso ele podia se abrir para as pessoas. E as pessoas sentem. Jesus chega e atende as pessoas. Para as pessoas daquela época Jesus deve ter sido uma simpatia ambulante. O povo sentia ‘nele, Deus fala para nós”. É a expressão da misericórdia de Deus.

ATÉ ONDE AS PEQUENAS COMUNIDADES PODEM FAVORECER A EVANGELIZAÇÃO?
As CEBs é uma coisa própria nossa, que nasceu aqui na América Latina e onde parece que, de certa maneira, a cultura nossa encontrou uma forma. Nasceu em Medellín, foi reformada em Santo Domingos e retomada com força pelos Bispo em Aparecida como uma das iniciativas eclesiais mais importantes. Os outros movimentos talvez pudessem passar pela comunidades para aprimorar e se inculturar um pouco mais aqui. São como o sal e o fermento que Jesus fala. É a base onde as pessoas, nas suas necessidades básicas, se encontram, trocam idéias, experimentam a sua fé e partilham. Um aprende do outro.

Pe. Edson Rodrigues
Alagoinha
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